quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Fim de linha

Estou de partida, vou embora
Ainda não fiz malas,
Não recolhi minhas coisas
Talvez, quem sabe, outra hora

Juntei de mim o pouco que restou
Meus ossos, trastes e partes
Recolhi as lágrimas, queixas
Tantas miúdas, pequenas

Agora, não vou olhar para trás
Não quero ver teu olhar
Zombando como quem diz
Que de partir não sou capaz

Ou quem sabe até para evitar
Que estendas o braço moreno
Onde sôfrega aportei

E na loucura de te amar
Saciando a falta que me fazes
Eu me perca outra vez

Só por hoje

Revesti-me com a capa da bondade
Cobri a cabeça em sinal de humildade
Recolhi as unhas e o olhar mordaz
Levei comigo o lírio da paz...

Infrutífero gesto meu
Tinhas a armadura do passado
O esquecimento e a indiferença
Não mais me querias ao lado

Estendi a mão no vazio da hora
Nada encontrei no vulto semi humano
Então busquei-te fundo nas lembranças
Daquilo tudo que já foi vivido

De ti nada restou para desconsolo
Deste coração feito em pedaços
Assim, sobre meus passos
Voltei a ser ninguém.

Por detrás das lágrimas

Rasteja o ente entre as tumbas
Por sobre a terra fria e úmida
As vestes rotas pelo chão que o seguem
Levam um séqüito de flores pútridas

Criatura criada à imagem do Criador
Hoje vaga em meio a lápides e detritos
Aborto expurgado pela mãe desdita
Percorre as dores deste mundo insano

Este ser bizarro é mero espectro profano
Sacia o cio usando o vil metal
Mais fera híbrida do que humano
Rega folhas mortas com o sêmen fétido

A mão que estende é de chagas feitas
Lazarento resto do que foi em vida
Só vê sua imagem através das lágrimas

O reflexo que lhe devolve, não o reconhece
Simulacro de homem que já foi outrora
Insensato objeto do amor que jogou fora

Clama aos céus sem nenhuma prece
Chora, o pária, genuflexo
Ao ver sua alma pelo avesso.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Escolhas que fazemos!


Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar
ao mesmo tempo nos dois lugares!
........................................................
( Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles)

Começamos com este fragmento da poesia de Cecília Meireles que traduz bem o processo de escolhas que somos impelidos a fazer durante nossa trajetória. As opções que fazemos são alternativas que a vida nos impõe e muitas vezes culpamos o “destino”, “a má sorte”, “o azar”. Tudo para não reconhecermos que nossa escolha foi errada. E, durante toda a vida seguimos escolhendo por esta ou aquela profissão, as roupas que vestimos, as pessoas com quem convivemos, nossas afeições, nossa moradia, o trabalho, o estilo de vida, nosso lazer. Esse é um processo mental até certo ponto razoável, pois nos dá o livre arbítrio, dependendo dos julgamentos que fazemos, nossas crenças, nossos valores. Todavia, se tivéssemos somente uma peça de roupa, quão mais fácil seria a ação de nos aprontarmos para sair, não é mesmo? Os homens, nossos maridos, companheiros e namorados agradeceriam: Perdemos um tempo enorme escolhendo a roupa, o calçado, a maquiagem, para, no fim de tudo, desfazermos e reiniciar, envolvendo horas a fio.
Entretanto, se não tivéssemos alternativas, e fôssemos obrigadas a vestir o velho jeans e a camiseta branca, quanta frustração! “...uma escolha severamente limitada ou artificialmente restrita pode levar ao desconforto com a opção selecionada e possivelmente a um resultado insatisfatório. No extremo oposto, alternativas ilimitadas podem levar à confusão, remorsos pelas opções não escolhidas e indiferença, numa existência amorfa.” (Wikipédia)
Isso requer dizer que termos a opção de escolhas nos faz bem. Nossa psiquê, nossa individualidade, nossa filosofia de vida, é expressa pelas nossas escolhas. É um processo no qual vamos nos moldando e aperfeiçoando, compondo nossa personalidade, nosso jeito de ser, nosso estilo de encarar os fatos da vida. No final das contas, nossas escolhas são nossa responsabilidade e não temos como culpar ninguem pelo fracasso se não houver sido uma boa opção.
É claro que, de acordo com o ambiente onde crescemos, com a formação e educação recebidas, temos escolhas mais significativas, tanto emocional, quanto pessoal ou profissional. Não determina maior ou menor sucesso, mas assegura um maior comprometimento na medida em que estamos melhor preparados, transformando o conhecimento em ferramenta para a construção de uma vida mais plena e realizada.
Ao nascermos recebemos uma grande carga de preceitos, preconceitos, simbolismos, a tradição cultural. Só o nosso conhecimento é que vai equilibrar esses valores prontos com a nossa visão de mundo e de sociedade, para isso, temos que escolher sermos sujeitos do processo de crescimento individual, revendo, reavaliando, incorporando alguns, rejeitando outros, construindo e desconstruindo a realidade. Assim formamos nosso eu, ser pessoal, intransferível, livre e insubordinado. Somos únicos, seres críticos e sempre em processo de formação.
Dessa forma, nossos caminhos serão sempre objetos de escolhas que fizemos, algumas essenciais, outras operacionais. Nossa é a opção de ser o timoneiro da nau em que viajamos por este mundo, atores ou meros coadjuvantes, sujeitos atuantes ou seres passivos e desinteressantes. O processo de escolha é antes de qualquer outra coisa, uma oportunidade de mostrar quem somos e por que estamos aqui. Não é um fim em si mesmo, mas um método na formação de nossa existência e, sempre, dizem muito sobre nós mesmos.
Veja que a nossa vida é o resultado de nossas escolhas. Agora pense e escolha o que você quer para você, mas escolha de forma responsável e verdadeira. E se aqui posso dar um conselho: Escolha principalmente ser feliz!